Artigo escrito e dedicado aos que adoram a arte de fazer e ler poesía

Geny

Publicado por Geny

 

             

•A gaiola

 
Se faz sua magia vou-me embora
na gaiola e ao lado o passarinho,
só por brincar com esse parceirinho
às corais de harmonias cada hora.
 
E lá para você, minha senhora,
vou gorjeiar com todo meu carinho,
se do pé me tirares o anelinho,
nunca mais vivirei a partir de agora.
 
Quão gostoso balanço já seria
dizer os seus poemas todo o dia
cantando pra você como tenor.
 
E ao ter tanta paixão e tanto zelo
eu só me pousarei no seu cabelo
caso me abrir a porta por amor.
 
Tradução dum poema original de
 
Dr. Salvador González Moles

 

Lamentação

 
Pensamento acongolhado,
por que agrava o seu tormento
com a dita do pasado?
Se ao lembrar fica magoado
pensamento?
 
Esperança que eu senti
como um iris de bonança
quando perdido me vi,
por que não me leva, diz,
esperança?
 
Juventude do meu peito,
por que muda da inquietude
o descanço no meu leito?
De mim, o que tem-me feito
juventude?
 
Coração que nada quer,
por que sente essa emoção
ante um engano qualquer?
Na quimera quer viver,
coração?
 
Vontade que assim fraguou
na dura solidão,
se meus desejos tirou,
por que assim me abandonou
a vontade?
 
Minha alma, o que procura
ao me levar pra alegria,
não é já uma loucura?
Não é tarde nesta altura,
minha alma?
 
A mulher escureceu
meu goço ao amanhecer...
Já não tive vida eu...
Em meu ocaso apareceu
a mulher!
 

Luis Ruiz Contreras

(1863-1953)

 

 

•Eu vou sonhando caminhos

 

Estes caminhos sonheiros
das tardinhas. As douradas
colinas, verdes pinheiros,
azinheiras empoeiradas!...
Para onde o caminho irá?
Eu, cantando e caminhante
na trilhada vou adiante...
-A tardinha caindo está!-
“No meu coração eu tive
o espinho duma paixão;
tirei-o, porém não vive
sem espinho, o coração.”
 
E todo o campo um momento
se fica mudo e sombrio
meditando, soa o vento
nos choupos, perto do rio.
A tardinha fica escura
e o caminho serpenteia,
e debilmente branqueia,
e se perde nessa altura.
Canto, e volto a prantear:
“Espinho d’ouro afiado,
quem te pudesse notar
lá no coração, cravado!”
 
António Machado
(1875-1939)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol,
 
Dr. Salvador Gonzalez Moles
Geny Pereira

 

•Fragmentos dos interesses criados

 
Coragem de amante
 
Noite, poesia, locuras de amante!...
Tudo vai servir-nos para a ocasião!
Só para triunfar! Valor e adiante!
Quem pode vencernos com nossa paixão!
 
Lamento do filho
 
Minha mãe d’alma! Se não tive amores
mais que por você, já pela janela,
desde que morreu vivo en tantas dores,
me beija apenas a luz duma estrela.
 
Lua de mel
 
As noites de amores são para os amantes
e dosséis estendem nos céus de verão,
pra eles vão pondo seus claros diamantes
no veludo suave em seu coração.
 
A ausência no parque
 
No jardim em sombras sem luz e sem cor
tudo misterioso lá vai ficar,
sussurro das folhas, aroma da flor,
o amor nas ausências deseja chorar.
 
O engano
 
Quando a voz suspira, quando a voz encanta,
e enganan palavras que não têm paixão,
parecem blasfêmias duma noite santa
como o mais falso duma má oração.
 

Los intereses creados (Fragmentos)

Jacinto Benavente (1866-1954)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol,
Geny Pereira
Dr. Salvador González Moles
 

 

•Ontem à noite dormia
 
Ontem à noite dormia,
sonhei, bendita ilusão!,
que uma fontana fluía
dentro do meu coração.
Diga, em que vala escondida,
água, tu vens até mim,
manancial de nova vida,
onde a beber nunca vim?
Ontem à noite dormia,
sonhei, bendita ilusão!,
porque uma colmeia havia
dentro do meu coração;
e as douradas abelhas
cumpriram um bom papel,
ao fazer com dores velhas,
branca cera e doce mel.
Ontem à noite dormia,
sonhei, bendita ilusão!,
que um ardente sol luzia
dentro do meu coração.
Era ardente porque dava
cores de vermelho lar,
o sol porque iluminava,
porque fazia chorar.
Ontem à noite dormia,
sonhei, bendita ilusão!,
que era Deus o quem vivia
dentro do meu coração.
 
António Machado
(1875-1939)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol,
 
Geny Pereira
Dr. Salvador González Moles
 
 

•Provérbios e canções

 
XXIX
 
Caminhante, nas pegadas
há caminho e nada mais;
caminhante sem caminho,
só caminho é de andar.
Andando se faz caminho,
quando volte o olhar atrás,
estará vendo o que nunca
será capaz de trilhar.
Caminhante sem caminho,
só tem trilhadas no mar.
 
XLIV
 
Tudo passa e permanece,
mas o nosso é passar,
passar fazendo caminhos,
caminhos, à beiramar.
 

António Machado

(1875-1939)
 
Tradução e adaptação dos poemas origináis em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 
 
 

Talvez a mão, nos sonhos

 
Talvez a mão, no seus sonhos,
do semeador de estrelas,
fez soar uma música esquecida
tal qual a nota duma lira imensa,
e veio uma onda humilde em nossos lábios
dumas poucas palavras verdadeiras.
 

António Machado

(1875-1939)
 
Tradução e adaptação do poema original em español:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 

 

 

Lembranças da infância

 

Uma tarde escura e fria

do inverno. Os colegiais

estudam. Monotonia

da chuva pelos cristais.

Lá num cartaz de papel

retratados são Caim

fugitivo, morto Abel

numa mancha cor carmim.

Com voz de sino alto e oco,

velho, o mestre é trovão,

magro, mal vestido, um bloco

e um livro leva na mão.

Toda a coral infantil

está cantando a lição:

mil vezes cem é cem mil,

mil vezes mil, um milhão.

Uma tarde escura e fria

do inverno. Os colegiais

estudam. Monotonia

da chuva pelos cristais.

 
 

António Machado

(1875-1939)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

•Uma prece a Morte

(Copla castelhana)
 
Ensinei, más não me ouviram;
quando escrevi, não me leram;
curei mal, não me prenderam;
e matei, não me puniram.
Se com morrer satisfiz,
oh Morte, vou reclamar!
Terias que perdoar
pelo serviços que fiz.
 

Félix Lope de Vega y Carpio

(1562-1635)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

•Canção de casamento

 
 
Vos dêem parabéns
maio bem vestido,
os campos alegres,
as fontes e rios.
Levante a cabeça
o amieiro verdinho,
árvores de fruto
que sejam floridos.
Após, nas manhãs,
dos orvalhos frios,
tudo seja enfeite
de espadas de lírios.
Que subam os gados,
aos prados compridos,
trilhadas sem neve
que vão aos tomilhos.
Montanhas geladas,
e soberbos picos,
carvalhos, pinheiros,
robustos e antigos,
às águas dêem passo
em riachos limpos
que aos vales descem
dos gelos mais frios
Cantem rouxinhóis
assobios docinhos,
digam seus amores
aos verdes mirtos.
As aves fabriquem
com novo artifício
para os seus filhotes
amorosos ninhos.
 

Félix Lope de Vega y Carpio

(1562-1635)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

•Amor é isso

 
Desmaiar, atrever-se, estar furioso,
áspero, tenro, liberal, esquivo,
corajoso, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e poderoso.
 
Não ver fora do bem centro e reposo,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
chateado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido e ciumoso.
 
Fugir o rosto ao claro desengano,
beber veneno por licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;
 
e crer que um céu num inferno cabe,
dar a vida e a alma a um desengano;
isso é amor, quem provou-o o sabe.
 
 

Félix Lope de Vega y Carpio

(1562-1635)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

 

•Às flores

 
Estas que foram pompas e alegria
despertando à luz pela manhã
à tardinha serão lástima vã
dormindo em braços da noitinha fria.
 
É a nuance que ao céu desafia,
íris listrada de ouro, neve e lã,
uma lição pra vida humana cá:
tanto se aprende após de só um dia.
 
A florescer as rosas madrugaram
e para envelhecer só floresceram:
berço e sepulcro num botão encontraram.
 
Tais fortunas dos homens acabaram,
se nasceram o día que morreram;
horas só quando os séculos passaram.
 
Pedro Calderón de la Barca
(1600-1681)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 

 

•A cigarra

 
Cante cigarra sua estrofe quente,
a mosca dance o ritmo do seu canto,
se enrosca sob sarçal uma serpente
e as videiras estendem verde manto.
 
As heras vão subtis em ascendente
tal qual cortina esplêndida, entretanto
que lembra a fonte rude e sorridente,
e o branco e fresco muro do recanto.
 
Não permita às asas a fadiga,
canta do campo o seu frutado gosto,
cheia de sol e do trabalho amiga.
 
Cantora excita ao inflamado agosto
para dar grão de cada loira espiga
e o jato turvo dum ardente mosto.
 

Salvador Rueda

(1857-1933)
 
Tradução e adaptação:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

 

•A melancia

 
Tal qual se abrisse de repente o dia
emitindo uma intensa lumeirada
que pelo aço afiado foi rasgada
mostrou vermelha a carne a melancia.
 
Carmim incandescente parecia
a longa e deslumbrante navalhada
como boca de fogo, e liberada,
fresca e torrencial, a hemorragia.
 
Fatia trás fatia foi então caindo,
que a faca devagar foi dividindo
vivas para ilusão todas tão cruas.
 
Quando a mão separou cada segmento
foi o prato decorado num momento
dum círculo de sangue em meias luas.
 

Salvador Rueda

(1857-1933)
 
Tradução e afaptação;
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

•Explicando uma tarde Anatomia

 
Explicando uma tarde Anatomia
um sábio professor
do coração dava aos seus alunos
perfeita descrição.
Atordoado à causa das tristezas
a cátedra deixou;
com risco de ser tido como louco
com alterada voz:
Dizem, senhores, ele exclamou pálido,
ninguém nunca tentou
viver sem essa víscera preciosa.
Erro, em crasso erro estão!
Um ser tão do meu ser, a minha filha,
ontem me abandonou;
as filhas que aos pais abandonam
já não têm coração!
Lá, um aluno dessa sala escura,
no fundo murmurou,
enquanto os outros, espantados, ouvem
tanta pública dor,
sorrindo pra um colega que era amigo
baixando a sua voz:
Pensa, à filha o coração lhe falta...
quando tenho-o eu só!
 

Eusebio Blasco

(1844-1903)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 
 
 
Tempestades

 I

 Como produz estagnação doentia,

se é durável, a tranquila calma,

a tempestade, amo, enfurecida

que espalha seu eflúvio e traz a vida

ao quebrar-se nos céus tal qual n’alma.

 

II

 Se rugir o oceano,

espancado dos fortes vendavais,

coroado, magnífico, de espumas,

enche o fundo com pérolas, corais

e a vida emana quando lança brumas;

e o pântano sereno,

traidor oculto sob a verde lama,

onde mora o réptil no lamaçal,

do implacável veneno é mortal

se na calma da atmosfera o derrama.

 

III

 Se está coberto, tal qual preto manto,

en todo o azul fluido,

da espessa nuvem produzindo espanto,

rasga-a o raio súbito, acendido,

ressoa comoção, e é estrondosa,

é terrível, e o nublado enegrecido

desmorona-se em chuva caridosa.

 

IV

 Quando as nuvens colidem lá na mente,

e num piscar é cheia,

como faísca ardente,

d’uma brilhante ideia,

como trovão, a palavra dentro brota,

e o nublado profundo

vai caindo-se, desfeito, gota a gota,

em chuvas de verdade em todo o mundo.

 

V

 Se no profundo d’alma o bem palpita;

o espírito, enervado nos prazeres,

na adversidade tem força infinita,

laboratório é para os seres,

tudo morto também lá ressuscita.

Tempestades pressagiam as bonanças;

as decepções trazem experiências;

dúvidas, as ciências,

e após os infortúnios, esperanças.

Dum espinhoso arbusto vem a rosa;

a larva inerte tem a sua sorte

na borboleta que voa formosa;

a íris brilha em chuva enegrecida;

fervem dentro do seio duma morte

férteis germes que trazem sempre vida.

 

VI

Glórias maiores são com luta forte;

estátua com escopro só se lavra;

a terra com o ferro dum arado

o errado de seu altar cai derrotado

do golpe imaterial duma palavra.

Seio é rasgado ao nascimento;

religião é provada nos martírios;

virtude é combate turbulento;

e o génio, tempestade e delírios.

Com sopros do simum crescem as palmas;

borrascas têm faíscas nas estelas;

do incêndio do caos saem estrelas

e amor sai das incendiadas almas.

 

VII

A vertigem no caos se desata,

numa explosão de moles vaporosos,

e forma-se o espaço e se dilata,

sulcado é com mundos numerosos,

se virando em fervente catarata,

onde soam trovões mais nebulosos:

o Fiat enche assim a esfera inteira,

é tempestade a criação primeira.

 

VIII

 A negra sombra cresce condensada

faz-se no esplêndido azul tudo cinzento;

mas súbito ilumina a fogarada

dum incêndio, maciço aquecimento.

Do vento a floresta é derrubada,

o Sinai bate do estremecimento;

rola o trovão tremendo pelos céus,

rugem as tempestades... Fala Deus!

 

IX

 É eclipsado o sol, zumbindo o noto;

abre-se em zigue-zague a pedra dura;

sacode o mar e a terra o terremoto,

e saem da profunda sepultura

esqueletos dum tempo já remoto;

ouvem os homens com mortal loucura

que a tempestade canta o “miserere” ...

Oh Jesus, essa cruz, quanto te fere!

 

José Velarde

(1849-1892)

 

Tradução e adaptação:

Dr. Salvador González Moles

Geny Pereira

 

Madrigal da Morte

 
Você nenhuma flor porque seu corpo era
todas as flores juntas em uma primavera.
Vermelho e fresco cravo eram lábios aqueles,
estavam em seus olhos todos os azuis neles,
e com veias e com tez de lírio e açucena
aquela frente pura, sua frente tão serena,
e como respondeu a tudo vergonhosa,
tomaram as bochechas as cores duma rosa.
Hoje sob o cipreste de louros é cercado
com rosas, cravos, lírios ficou também fechado,
brotando dessa terra confundem suas cores,
parece que seu corpo devolveu-o com flores.
 

Francisco de Asís de Icaza 

(1865-1925)
 
Tradução e adaptação:
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 
 

Os sinos

 
Eu as amo, eu as ouço,
como o murmúrio do vento,
tal qual ouço o som da fonte,
e o balido do cordeiro.
Como os passarinhos, eles,
quando aparece nos céus
do amanhecer um só raio,
cumprimentam com seus ecos.
E com prolongadas notas
espalham seu som sincero,
nas planícies, nas colinas,
pacífico e lisonjeiro.
Si eles calaram pra sempre...
Quão tristes ventos e céus!
Quanto silêncio na igreja,
esquisito a quem morreu!
 

Rosalía de Castro

(1837-1885)
 
Tradução e adaptação:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 
 
Sonhos
 
Vida e morte sonhos são,
tudo no Mundo é quimera...
Sonho é a vida do homem,
sonho é a morte na pedra.
Naqueles olhos fechados
ficou gravada uma ideia:
“Mais que ver do que vê o homem
ficar cego vale a pena”
Nesses tão rígidos lábios
ficou uma palavra yerta:
“Mais do que falar do homem
é melhor calar na pedra”
E nesse peito no fundo
a esperança, morte certa:
“Mais que a vida dum homem
vale a morte lá na pedra”
Se vida e morte são sonhos...
e no Mundo é quimera...
Dou minha vida de homem
pra um mortal sonho na pedra!
 
 

Ángel Ganivet

(1862-1898)
 
Tradução e adaptação:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 

Tempos que foram

 

Hora após hora, dia após dia,

ficam-se entre o céu e a terra

eternos vigias,

tal qual se despenhou o torrente

passa a vida.

 

Devolvam-lhe à flor seu perfume

depois de murchar;

das ondinhas que beijam a praia,

e beijando uma a uma lá expiram.

Recolham rumores, e queixas,

pra gravar nos bronzes a sua harmonia.

 

Tempos que foram prantos e risos,

negros tormentos, doces mentiras,

oh! onde seus traços deixaram,

onde foi alma minha?

 

Tradução e adaptação da versão original da autora em espanhol

Rosália de Castro

(1837-1885)

 

Traductores:

Dr. Salvador González Moles

Geny Pereira

 

 

Pra Geny Pereira

 

•Cinco anos

 
Nem devagar como um triste
nem em vão foram os risos,
vão tempos tal qual passam
as águas limpas do rio.
 
Foram quase cinco anos,
porém só foram os cinco
nem devagar como as penas
nem foi raio alvorecido.
 
Eu fui aprender palavras
da professora e dum livro,
voltei, mas tinha saudade
de falar já como amigo.
 
Dr. Salvador González Moles

 

Em memória dum anjo

 

Cheguei com passo lento sem alerta,

as têmporas pulando da batida:

vi deitada no leito adormecida

da promessa do amor, a morte certa.

 

Com quatro velas duma chama incerta

nesse espectro morava a minha vida,

perto do travesseiro vi abatida

a rosa que eu dei já entreaberta.

 

Pareceu-me que pelos negros olhos

uma azul claridade lhe brotou,

novamente com alma lhe sonhei,

 

e pra dizer -“sou tua”-, me chamou.

Beijei seus lábios, já sem ter escolhos...

Era o beijo primeiro, reparei!

 

 

Manuel Del Palácio

(1832-1906)

Tradução e adaptação da versão em espanhol:

Dr. Salvador González Moles

Geny Pereira

 

 

Amor segredo

 

Do amor, a confissão mais verdadeira

ouviras nas caladas ceosias

e fora testemunha das porfias,

a Lua dos mais tristes companheira.

 

Seu nome diz essa ave prazenteira

a quem vou visitar todos os dias,

e alegram os meus sonhos d’alegrias

montanhas, vales, a região inteira.

 

Se só tu meu segredo não conheces,

ainda que a alma, com batida ardente,

sem eu querer o diga tantas vezes,

 

talvez deva ignorá-lo eternamente

tal qual onda do mar, se assim esqueces,

que oferenda da fonte nunca sente.

 

Manuel Del Palácio

(1832-1906)

Tradução e adaptação do poema original em espanhol:

Dr. Salvador González Moles

Geny Pereira

 

 

Outubro

 

Deitado estava eu na terra em frente

dos infinitos campos de Castela,

naquele outono envolto na amarela

doçura de seu claro sol poente.

 

O arado em paralelo, lentamente,

deixava no terreno a sua estela

e as honestas mãos colocavam nela,

partida, na sua entranha, a semente.

 

Pensei o meu coração lá me arrancar,

cheio dum sentimento alto e profundo,

no sulco atirar do terroir terno,

 

a ver se com parti-lo e com plantar

mostrava a primavera pelo mundo

a pura árvore do amor eterno.

 

Juan Ramón Jiménez

(1881-1958)

Tradução e apatação do poema original em espanhol:

Dr. Salvador González Moles

Geny Pereira

 

Soneto

 

A Lua enquanto dormes te acompanha,

te ilumina o cabelo se está à frente,

e depois do semblante, lentamente,

ao seio vai e suas cumbres banha.

 

Eu, Lesbia, no umbral de sua entranha

não durmo, choro e rogo inutilmente,

e o curso dessa Lua reluzente

ditoso hei-de seguir se o amor amanha.

 

Hei-de entrar, tal qual Lua, no aposento,

vou andar onde repousas tal qual dela

e vou-me tal qual dela aproximar.

 

Tal qual dela vou aspirar o seu alento,

e, tal qual essa deusa branca e bela,

puro, trémulo e mudo me apartar.

 

José Somoza

(1781-1852)

Tradução e adaptação do poema original em espanhol:

 Dr. Salvador González Moles

Geny Pereira

 

 

Os olhos do orfãozinho

 
Mais do que as pálidas carnes
e dormentes pelo frio,
causam-me séria amargura
os olhos desse orfãozinho.
Esses olhos são azuis,
são brilhantes e tranquilos,
com inquietude da estrela,
solenidade dos círios:
olhos cheios de risada
e cheios de regozijo,
como feitos para as cumbres
e não para os abismos;
para ser auroras, não
crepúsculo anoitecido.
Menos olhos, tudo é
tristeza nesse menino,
tristes são as mãos brancas,
as mãos brancas de linho,
que não acariciaram nunca
o mistério dum brinquedo
nem as páginas dum livro.
Tristes seus lábios que nunca
gostaram agradecidos,
nem os beijos duma mãe
nem doces de outros meninos;
e sua fronte onde ninguém
pôs ternuras ou pôs mimos,
e seu coração que dentro
do seu peito é como um ninho
do jamais gorgolejara
o rouxinhol do carinho.
Por quê, pois, se tudo é triste
nesse pobre orfãozinho,
seus grandes olhos azuis,
brilhantes olhos, tranquilos,
estão cheios de risada
e cheios de regozijo?
Quão tristeza me causam
os olhos do orfãozinho!
 

Marciano Zurita

(1889-1929)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol,
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

Balanço

 
O mar, suas milhares ondas
balança divino.
Ouvindo amorosos os mares,
balanço meu filho.
Errantes os ventos na noite
balançam aos trigos.
Eu ouço amorosos os ventos,
balanço meu filho.
Deus pai, aos seus milhares mundos
balança sem ruído.
Sentindo suas mãos na sombra,
balanço meu filho.
 

Gabriela Mistral

(Lucila Godoy Alcoyaga)
(1889-1957)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 
 

Apegado a mim

 
Cotão do meu mesmo seio
que nas entranhas teci,
cotãozinho friorento,
vem,dorme apegado a mim!
A perdiz dorme no trevo,
vai sua batida a ouvir.
Não se perturbe do alento,
vem,dorme apegado a mim!
Tremente erva esverdeada,
se do assombro vive assim,
não se solte do meu peito:
vem,dorme apegado a mim!
Eu tudo tenho perdido,
tremo agora ao dormir.
Não se escorra do meu braço:
vem,dorme apegado a mim!
 

Gabriela Mistral

(Lucila Godoy Alcoyaga)
(1889-1957)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol,
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 
 

Soneto da preguiça

 
Quão doces os presentes duma cama!
Quão loucura acordar de amanhecer,
embora diga a musa que o Sol chama
as paixões com trinados, ao nascer!
 
Engraçada a poltrona que me ama,
tranquila, sem trabalhos pra fazer!
Comer e repousar, se nada inflama
vontade pelo assunto remexer!
 
Salve, preguiça! No maciço templo,
já deitado procuro do acomodo!
Sou seu melhor aluno em dar exemplo
 
bocejando, e desfruto de tal modo
sonolência aprazível, sem maliça
nem acabo o soneto da... pregui... (ça)
 

Manuel Bretón de los Herreros

(1796-1873)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

O anel

 
Nunca será pra mim um pesadelo
lembrar qual era o custo do presente,
que um anel que é pouco reluzente
será barato mesmo que amarelo.
 
A pedra parecia dum sincelo,
no entanto, ajoelhei-me humildemente,
subiria seu preço enormemente,
ao ser em você assim de belo.
 
Agora sinto medo do vazio,
caso esteja seu dedo nu, e sem frio,
só porque já não vou ser a razão.
 
Bugiganga será, e sem remédio,
se você tirar do assédio,
quão desprezo de mim na sua mão!
 
 
Salvador González Moles
 
 

“Apaisement”

 
Seus olhos e meus olhos contemplam-se
na luz crepuscular.
Bebemos nossas almas lentamente,
dorme-se um desejar.
Tal qual crianças, nunca eles soubessem
ardores dum amor,
na tardinha que passa em paz olhamos
nova do coração.
Violeta era o azul pela montanha.
E azul, azul está.
Eram os céus da solidão. E agora
a Lua d’ouro vai.
Sabe sou já seu, e minha vocé é,
como homem e mulher.
Ao ser nosso olhamos um para outro
no calmo entardecer.
Da cor das águas são as suas pupilas,
da cor águas do mar.
Nua neles minh’alma está submersa,
no eterno apaixonar.
 

Manuel Magallanes Moure

(1878-1924)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

Fanatismo

 
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !
 
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !
 
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
 
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim! ..."
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Fanatismo

 
Mi alma de soñarte anda perdida.
¡Mis ojos ya de verte no han de ver!
¡Ni eres la razón para mi ser
por ser ya para mí toda mi vida!
 
No veo nada así de enloquecida...
¡Voy por el mundo, Amor, para leer
del libro misterioso de tu haber
la misma historia tan y tan leída!
 
Todo pasa en el mundo en frágil vaso...
¡Cuando me dicen esto, será acaso
que una gracia divina me habla en mí!
 
Con mis ojos en ti voy dando pistas:
¡Mueran mundos o estrellas, con que
[existas,
tendré el principio y fin de Dios en ti!...
 

Florbela Espanca

 
Nasceu a 08 Dezembro 1894
(Vila Viçosa)
Morreu em 08 Dezembro 1930 (Matosinhos)
 
Tradução enadaptação do poema original em português:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira
 

 

Dizer adeus

 
Antes de que seu corpo finalmente,
doce rolasse o mar na onda ditosa
quiseste repousar sua luz graciosa,
misturá-la com minha luz ardente.
 
Vales e sombras. Mais do que amor sente
em delicada paz tornou em morosa,
e um beijo longo e triste, na hora umbrosa
brilhou no escuro, silenciosamente.
 
Ai a alegria, quão eterna lá se via
na ribeira em que passa caminhante
um tempo novo para minha alma.
 
Tudo o que senti: a luz distante,
a lágrima de adeus, a noite fria
e o rosto morto de acordar em calma.
 
 
Vicente Aleixandre
(1898-1984)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol:
 
Dr. Salvador González Moles
Geny Pereira

 

Meus olhos sem seus olhos...

 

Meus olhos sem seus olhos não são olhos

são como formigueiros solitários,

sem suas mãos as minhas são rosários

de intratáveis espinhos, vários mólhos.

 

Sem você os meus lábios têm escolhos

para se encher de doces campanários,

e o pensar sem você são meus calvários

de plantar cardos e secar abrolhos.

 

Não sei da minha orelha sem seu acento

nem sequer pra que pólo vou sem seu astro,

minha voz sem seu trato se afemina.

 

Os odores persigo do seu vento

e a imagem esquecida do seu rastro

que em você inicia, amor, e em mim termina.

 

Miguel Hernández

(1910-1942)

 

Tradução e adaptação do poema original em espanhol:

 

Dr. Salvador González Moles

Geny Pereira

 
 
 
Romance do Douro
 
Rio Douro, rio Douro,
ninguém pra te acompanhar baixa:
ninguém se detém pra ouvir
tua eterna estrofe de água.
Indiferente ou covarde
volta a cidade a mirada.
Não quer ver no teu espelho
sua muralha desdentada.
Tu, velho Douro, sorris
entre tuas barbas de prata,
moendo com seus romances
as colheitas desgraçadas.
E entre os santos de pedra
e as alamedas mágicas
passas levando nas ondas
palavras de amor, palavras.
Quem pudesse, tal qual tu,
quieto deixar as pegadas,
cantar sempre o mesmo verso
mas com diferente água.
Rio Douro, rio Douro,
ao teu lado ninguém baixa,
já ninguém quer atender
tua eterna estrofe que passa,
se não os apaixonados
que perguntam por suas almas
e semeiam nas espumas
palavras de amor, palavras.
 
Gerardo Diego
(1896-1986)
 
Tradução e adaptação do poema original em espanhol
Salvador González Moles
Geny Pereira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Geny

Geny Pereira ver perfil

Profesora en Tusclasesparticulares

Imparte clases de español para extranjeros, Portugués y FCE First Certificate in English

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